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A sutil arte de ligar o f*da-se, o autoconhecimento e o sucesso

Publicado em 1 de novembro de 2018
Por:

João

Guilherme Brotto

Estresse, insatisfação, jornadas de trabalho intermináveis nem sempre amparadas por um propósito, crises de existência, burnout… Esses (e outros) elementos se tornaram comuns no mundo corporativo. Aliás, segundo uma pesquisa da International Stress Management Association (Isma), 30% dos mais de 100 milhões de trabalhadores brasileiros sofrem de burnout.

É possível que muitas dessas pessoas tenham chegado a tais níveis de insatisfação porque sempre se cobraram demais e se espelharam em histórias de sucesso contadas de forma superficial e escondendo os pontos negativos inerentes a qualquer trajetória vencedora. É como se não houvesse alternativa para alcançar o subjetivo conceito de sucesso.

A verdade é que nunca fomos tão infelizes no trabalho, ao mesmo tempo em que nunca trabalhamos tanto. Muitas vezes sem nem pensar exatamente se estamos remando na direção certa.  

Mas e se ao invés de nos dedicarmos de corpo e alma a tudo, decidíssemos encarar algumas questões da vida por um viés mais leve e livre de cobranças? Estaria Zeca Pagodinho certo ao dizer “deixa a vida me levar”?

Essa afirmação é a antítese de como pensam e agem profissionais de alta performance. Mas e se esse jeito mais tranquilo e despreocupado de ver e viver a vida pudesse gerar efeitos positivos?

É por essa ótica que o autor Mark Manson apresenta seu modo de ver o mundo no livro A sutil arte de ligar o f*da-se, que você provavelmente viu nas livrarias recentemente ou ouviu alguém falando sobre.

Primeiro, toda obra que traz um título polêmico merece ser ponderada. A velha máxima de não julgar um livro pela capa é muito válida nesse caso. Esteja você inclinado a ler ou achando que se trata de um conto barato de autoajuda.  

Nesses dias polarizados, é fácil idolatrar ou chamar de lixo alguma coisa. Enquanto o livro pode despertar esses sentimentos, há muitos pontos positivos na leitura. E é neles que vou focar.  

a sutil arte de ligar o foda-se cópia

Uma legião de frustrados

Nossa cultura privilegia histórias extraordinárias de sucesso. No entanto, muitas vezes essas histórias são contadas de forma superficial. Com isso, geramos uma legião de pessoas insatisfeitas com a própria vida, mesmo que nem sempre tenham motivos racionais para se sentirem assim.

O problema é o seguinte: a sociedade atual, através das maravilhas da cultura do consumo e do exibicionismo de vidas incríveis nas redes sociais, produziu uma geração inteira que enxerga esses sentimentos negativos (ansiedade, medo, culpa etc.) como problemas.

Veja bem, quando você abre o Facebook, vê todo mundo chafurdando em felicidade até não poder mais. Nos tempos dos nossos avós, quando ficavam na merda, as pessoas pensavam: ‘Puxa, estou me sentindo o cocô do cavalo do bandido. Bom, é a vida! Vou voltar para a minha lavoura.’ E hoje?

Hoje em dia, se você fica na merda por cinco minutos que seja, é bombardeado com trezentas e cinquenta imagens de gente absurdamente feliz com uma vida maravilhosa da p*rra, e é impossível não sentir que tem algo errado com você.

Essa última parte é a fonte do problema. Ficamos mal por estarmos mal; nos culpamos por nos culparmos. Ficamos irritados com nossa irritação; ansiosos com nossa ansiedade. Qual é o meu problema? Daí a importância de ligar o f*da-se.

É isso que vai nos salvar, nos fazendo aceitar que o mundo é uma doideira e que tudo bem, porque sempre foi assim e sempre será. Quando você está pouco se f*dendo para seu mal-estar, você faz o Círculo Vicioso Infernal entrar em curto-circuito.”

Mark Manson, em A sutil arte de ligar o f*da-se

Veja, não se trata de levar o f*da-se para toda a sua vida, mas em se importar menos com coisas que importam menos. “A ideia não é fugir das merdas. É descobrir com qual tipo de merda você prefere lidar”, sintetiza o autor.

stelvio - italia

O Passo dello Stelvio é a segunda estrada asfaltada mais alta da Europa. Fica na fronteira entre a Itália e a Suíça, no meio dos alpes

Você vai sofrer, quer queira ou não

Essa busca insaciável pela felicidade, amplamente propagada por “gurus motivacionais”, pela mídia e pela publicidade, que afirmam que a felicidade é um ponto de destino permanente, que será alcançado se você fizer o que eles dizem que você precisa fazer, deve ser contestada. Experimente tomar Coca-Cola todos os dias durante décadas seguidas para ver se ela vai te trazer a tal felicidade prometida. Spoiler alert: a felicidade não vem em overdose de açúcar!

Na era da informação, o que não falta são “especialistas” dizendo ter a fórmula para resolver seus problemas com o dinheiro, com a balança, com o trabalho, com a família, com o vizinho e com seus fantasmas internos. Eles querem que você fuja de uma verdade irrefutável, que é bem explicada por Manson neste trecho do livro:

“A vida em si já é uma forma de sofrimento. Os ricos sofrem por serem ricos. Os pobres sofrem por serem pobres. Pessoas sem família sofrem por não terem família. Pessoas com família sofrem por causa da família. Pessoas que buscam os prazeres mundanos sofrem por causa dos prazeres mundanos. Pessoas que se abstêm dos prazeres mundanos sofrem por se absterem”.

Veja que não há saída. O sofrimento é inerente à vida. Isso não se controla. Não importa o que tentem vender para você.

Por outro lado, a sua postura para lidar com o sofrimento só depende de você. “Quanto mais tentamos nos sentir bem o tempo todo, mais insatisfeitos ficamos, pois a busca por alguma coisa só reforça o fato de que não a temos”, alerta o autor.

a sutil arte de ligar o foda-se e o autonhecimento

Vitrine da Gucci durante o Fuorisalone 2018, em Milão

Você já reparou que os problemas nunca acabam?

A ironia é que a infelicidade e o sofrimento são os agentes que farão com que de fato você consiga ser feliz, ainda que sabendo que a felicidade permanente é um mito. O ser humano sempre vai “achar sarna para se coçar”, como diriam os mais velhos. Se você conseguiu o emprego dos seus sonhos, não vai demorar para perceber que mesmo o seu sonhado mundo ideal tem inúmeras imperfeições.

Pessoas de alta performance são movidas por sonhos e realizações. Mas quando um grande objetivo é atingido, passada a euforia e a injeção de adrenalina que são refletidas através de espasmos de felicidade, aquela situação se tornará parte do cotidiano e, logo, será ordinária. A insatisfação vai chegar e será preciso dar um próximo passo. O problema é que nem sempre esse próximo passo já será conhecido.

Logo, abraçar o sofrimento é preciso. “Os problemas nunca acabam; eles apenas são substituídos e/ou atualizados. A felicidade está em resolver problemas. Repare que a palavra-chave é ‘resolver’. Se você evita os problemas ou acha que não tem nenhum, está no caminho da infelicidade. Se acha que não consegue resolver seus problemas, estará no mesmo caminho. O segredo está em resolver os problemas, e não em não ter problemas”, filosofa o autor.

Não existe almoço grátis

Voltando ao exemplo da superficialidade das histórias de sucesso, a sabedoria popular resume bem a conclusão óbvia: “O povo vê as pinga que nóis toma, mas não vê os tombo que nóis leva”. Pessoas que atingiram a excelência, seja onde/como, em sua maioria, dedicaram-se profundamente para fazer aquilo acontecer.

Um CEO de uma grande empresa abriu mão de muita coisa na vida para chegar a essa posição. O mesmo vale para um atleta de alto rendimento ou para qualquer pessoa que seja um exemplo para você. O problema é que nem todos estão dispostos a pagar o preço desse sucesso, que geralmente envolve noites mal dormidas, distância de pessoas que você ama e consequências graves em sua saúde física e emocional.

“O que determina o sucesso não é ‘de que prazer você quer desfrutar?’. A questão relevante é: ‘Qual dor você está disposto a suportar?’ O caminho da felicidade é cheio de obstáculos e humilhações. Você tem que escolher alguma coisa”, aponta Manson.

Gostar do sucesso é fácil, mas sentir prazer na dor que vai conduzi-lo aos seus objetivos é exclusividade dos disciplinados e motivados. “As poucas pessoas que se tornam verdadeiramente excepcionais em algo não alcançaram isso porque se consideram excepcionais. Pelo contrário: elas são incríveis porque são obcecadas por se aperfeiçoar. Essa fixação é derivada de uma crença imperturbável de que, na verdade, não são lá grande coisa. É o inverso da arrogância. Quem se torna excelente em alguma coisa consegue isso por entender que não nasceu excelente – é medíocre, comum –, mas que pode se tornar muito melhor”, lembra o autor.

Il dito - l.o.v.e - milano

Obra do artista italiano Maurizio Cattelan instalada em frente à bolsa de valores de Milão

A consistência e a visão de longo prazo

A tecnologia está nos transformando em uma sociedade cada vez mais imediatista. A Amazon entrega suas compras em poucas horas. O Uber chega em poucos minutos. Apostamos em dietas absurdas para perder peso rápido. Por furos de reportagem, a imprensa comete erros graves. Vivemos conectados nas redes sociais para acompanhar o que as pessoas estão fazendo agora e deixamos de viver nossas próprias vidas por isso.

O imediatismo, porém, é um pires raso.

O prazer provocado por esses gatilhos de curto prazo acaba rápido e afeta drasticamente o que pode fazer a diferença em nossas vidas no longo prazo. E é aí, talvez, que esteja a raiz do estresse de muita gente. Pensar e agir visando o longo prazo dá trabalho e exige que larguemos pequenos prazeres, mas é só isso que nos conduzirá aos nossos objetivos.

“São atividades estressantes, árduas e muitas vezes desagradáveis, além de trazerem consigo inúmeros problemas, mas, ao mesmo tempo, são as que nos proporcionam os momentos mais marcantes e constituem nossas maiores alegrias. Atividades como essas envolvem dor, cansaço, raiva e até desespero — mas, depois de concluídas, olhamos para trás emocionados. É o que contaremos aos nossos netos. É como Freud disse: ‘Um dia, quando olhar para trás, os anos de luta lhe parecerão os mais bonitos’.”

Mark Manson

autoconhecimento

O que você realmente quer da vida?

Muitas vezes nosso parâmetro de sucesso está errado. Como já falei anteriormente, uma vez que um grande sonho é alcançado, é fácil ser consumido por um vazio e um grande questionamento do tipo “e agora?”, principalmente se esse grande sonho envolve conquistas materiais.

O ser humano é um animal altamente adaptável. A evolução da nossa espécie prova isso. Porém, enquanto isso pode ser extremamente positivo, é, ao mesmo tempo, uma cilada. Principalmente quando alcançamos um sonho grande. Afinal, como já disse não vai demorar para o seu sonho se tornar sua nova realidade, que se tornará um fato cotidiano em sua rotina, e aí talvez você não tenha calculado o próximo passo. O que pode ser perigoso.

Contra isso, nada melhor do que investir, sempre, em seu autoconhecimento e na busca por um propósito maior que um carro novo na garagem todo ano.

E aí, para quê você vai ligar o f*da-se hoje?

Pra saber mais

Tem um debate legal sobre o livro rolando no goodreads. Se você é usuário da rede, me adiciona.

*Resenha originalmente publicada na revista VendaMais – edição de jul/2018

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